Francisco Varatojo

Francisco Varatojo nasceu a 13 de novembro de 1960, na cidade de Leiria, e partiu a 6 de julho de 2017, no fundo do mar... Pelo meio, ao longo destes 57 anos e um pouco por todo o mundo, deixou uma extraordinária história de amor a uma causa.

Dono de uma curiosidade insaciável e de uma sagacidade ímpar, Francisco cedo se começou a interessar por temas como nutrição, ecologia e espiritualidade. Mas foi no alto dos seus 16 anos de adolescente, que se abriu a porta para a descoberta que viria a marcar para sempre a sua vida: a Macrobiótica.

Depois de uma mudança radical de regime alimentar, as alterações que vivenciou a nível físico e mental foram avassaladoras, sentindo-se com mais energia, maior acuidade mental e, acima de tudo, uma sensação até então desconhecida de plenitude e de ligação a tudo o que o rodeava.

A alimentação e a filosofia macrobióticas mostram-lhe que existe uma ordem na natureza, através da qual todos os fenómenos estão inexoravelmente ligados, e na qual o ser humano tem a possibilidade, e o dever, de ser mais consciente e responsável pela sua saúde.

Anos mais tarde, nas suas aulas com plateias cheias, Francisco Varatojo virá a relatar este primeiro contacto com a macrobiótica como uma verdadeira epifania, de tal forma transformadora que fê-lo decidir viver a sua vida ensinando aos outros o que o havia tocado tão profundamente.
Pôs de parte o ambicionado curso de Medicina e rumou até aos EUA, para estudar com os melhores na altura, Aveline e Michio Kushi, os grandes mentores da Macrobiótica no Ocidente. Quando regressou em 1980, começou a trabalhar a tempo inteiro na educação macrobiótica: aulas, seminários, consultas, agricultura, culinária… a criação de um mundo melhor era o limite.
Nesta altura, a perspetiva holística da macrobiótica era demasiado inovadora. Relacionar alimentação, estilo de vida e as principais doenças modernas, parecia algo exagerado. Associar alimentação a problemas ambientais era ainda mais estranho. Valorizar o uso da mente para a obtenção de saúde e liberdade pessoal era considerado terreno excêntrico e esotérico. Hoje em dia, sabe-se que precisamos desesperadamente de relacionar todas estas variáveis se queremos continuar a ter vida neste planeta. Francisco Varatojo já o sabia nessa altura e estava determinado a dizê-lo aos 4 ventos…

Aos 19 anos, motivado pela inabalável convicção dos efeitos milagrosos de uma alimentação saudável, promoveu a experiência inédita de lecionar aulas de macrobiótica a um grupo de reclusos no estabelecimento prisional do Linhó. Ao fim de 2 anos, a experiência foi considerada um sucesso, tendo o diretor do estabelecimento da altura, Dr. Assis Teixeira, reconhecido que se verificava uma alteração muito significativa no comportamento dos reclusos. 

Em 1982, Francisco Varatojo casou com Eugénia Horta e juntos começaram, em 1985, o Instituto Kushi de Portugal, que mais tarde se tornou o Instituto Macrobiótico de Portugal (IMP), atualmente considerado um centro de referência a nível internacional.

Os 4 ventos ouviram-no, renderam-se a este orador nato, ao seu carisma e magnetismo humano, à sua coerência intelectual e integridade de carácter, à sua alegria contagiante e generosidade infinita… E, de retorno, devolveram-lhe um IMP com salas lotadas, cursos esgotados com alunos de várias nacionalidades, listas gigantes de espera para consultas, testemunhos reais de pessoas que viram a sua vida mudar substancialmente para melhor…

Ao longo deste percurso, Francisco Varatojo foi convidado para dar aulas e conferências em vários cantos do mundo (Espanha, Holanda, Itália, Suíça, Alemanha, França, Estados Unidos da América, Tailândia, China, entre outros), impulsionando a Macrobiótica e a ideia de que o nosso estilo de vida e a nossa alimentação são os aspetos mais importantes para a criação de uma saúde mais robusta e de um planeta mais justo e sustentável.
Foi colaborador regular do jornal "SOL", "A Capital", da revista "Pais e Filhos", da revista "Xis" e dos programas de TV "SIC 10 horas" e "As Manhãs de Sofia".

Foi autor do "Pequeno Livro da Saúde Natural", "Livro de Diagnóstico Oriental", "Ki das 9 Estrelas", "Alimentação Macrobiótica" "Fundamentos do Pensamento Oriental e Macrobiótico", "Remédios Caseiros" e de vários cd's e vídeos sobre saúde. Em 2010, editou o livro ‘Mente Sã, Corpo São’ (6ª edição) e em 2015 saiu o seu último título ‘Os Alimentos também Curam’ (3ª edição).
Proferiu inúmeras conferências e palestras em diversas instituições públicas portuguesas, particularmente na Faculdade de Farmácia de Lisboa e na Faculdade de Medicina de Coimbra. Foi professor convidado na Escola Superior de Enfermagem Calouste Gulbenkian e chegou ainda a dar uma palestra na Assembleia da República.
Em 2010 foi agraciado com o prémio "Aveline Kushi Award" pelo seu trabalho e dedicação por um Mundo melhor.
Foi presidente da "International Macrobiotic Assembly" durante 6 anos e um dos responsáveis por uma clínica internacional em Espanha - SHA Welness Clinic, tendo, juntamente com Michio Kushi, preparado o programa de saúde e alimentação da mesma.
Em 2014, Francisco Varatojo conseguiu o que há uns anos atrás seria impensável: uma iniciativa conjunta entre o IMP e a Direção Geral de Saúde/Administração Central do Sistema de Saúde. O Seminário “Nutrição: Factos e Mitos” com o Dr. Colin Campbell (reconhecido doutorado em nutrição, bioquímica e microbiologia pela Universidade de Cornell), contou com a presença do Secretário de Estado - Fernando Leal da Costa e do Diretor Geral de Saúde – Dr. Francisco George.

Mais do que ter sido um palco de debate sobre alimentação na atualidade, este evento representou para Francisco uma esperança renovada de que a necessidade premente de mudarmos a nossa mentalidade em relação à saúde estava finalmente a começar a ter eco junto de entidades oficiais. A sua voz, até há pouco ensurdecida por velhas crenças enraizadas e por fortes industrias alimentares, começa a ser ouvida para além dos seus muitos alunos e pacientes.

A palavra Macrobiótica significa literalmente ‘grande vida’, grande não apenas na longevidade mas também na grandiosidade que a vida pode ter: felicidade, amor, liberdade, paz. O pressuposto base é o de que o ser humano pode manter e recuperar a sua saúde, bem como responsabilizar-se pela sua própria vida e desenvolver um espírito de gratidão e respeito por tudo o que está à sua volta.
Francisco Varatojo é a maior prova de que esta grande vida é possível.
Suas são as palavras: “Independentemente dos sucessos materiais ou outros que possamos ter na vida, o que define a nossa humanidade e espiritualidade, quando nos momentos derradeiros temos de fazer contas connosco mesmos, é essencialmente o quanto amámos e ajudámos os outros. Não apenas o quanto amámos os nossos pais, o nosso cônjuge ou os nossos filhos, mas o quanto amámos realmente todas as pessoas com quem nos cruzámos, o quanto amámos a vida que vivemos, o quanto fomos capazes de viver com o coração aberto, independentemente das maiores ou menores dificuldades que possamos ter experienciado” (1)
Quem o conheceu, sabe que assim foi o Francisco.
Desapareceu a fazer uma das coisas que mais gostava, mergulho no oceano, em contacto com a natureza onde dizia sentir-se em casa. Nos últimos minutos antes da sua última inspiração de vida, Francisco Varatojo ainda conseguiu fazer aquilo que sempre fez tão bem. Ajudou o seu colega de mergulho a vir à tona. Ele ficou no fundo do mar, mas com uma missão de vida plenamente cumprida.

(1) In Mente Sã, Corpo São. Editora Esfera dos Livros