Aveline Tomoko Kushi

Se já ouviu falar em arroz integral, shoyu, miso, futons, teatro noh e se aprecia a arte e a cultura orientais, assim como um modo de vida mais saudável, então provavelmente está em dívida para com Aveline Kushi, uma verdadeira pioneira do movimento de alimentos naturais e da macrobiótica.

Aveline Tomoko Kushi faleceu a 3 de Julho de 2001 e teve honras de obituário na revista Time e no Congresso Norte-Americano. O seu trabalho e o do marido, Michio Kushi, está exposto desde 1999 no Museu Smithsonian em Washington.

Eu fui privilegiado por ter vivido na sua casa em Boston, colaborado nas actividades da East West Foundation e Kushi Foundation e ter sido um dos responsáveis pela organização dos muitos seminários e cursos que Michio e Aveline Kushi deram em Portugal, um país de que gostavam em particular, nutrindo uma enorme paixão por Sintra, que visitavam sempre que podiam, e na realidade o único local do Mundo onde se dispunham a gastar um dia ou uma tarde a fazer turismo.

Aveline Kushi sempre me serviu como um exemplo de dignidade, graciosidade, determinação e compaixão, e era particularmente notável na forma como lidava com as crianças e como estava sempre disponível para ouvir e ajudar quem tinha problemas.

A 3ª filha numa família de 9 crianças, Aveline nasceu na perfeitura Izumo nas profundas montanhas do centro do Japão. Estudou Literatura e História na Universidade Feminina em Hamada e foi campeã de ginástica, uma actividade de que teve de abdicar com a Guerra do Pacífico.

Após o bombardeamento de Hiroshima adoeceu gravemente e teve uma enorme crise emocional, altura em que conheceu o filósofo e educador George Ohsawa, com quem passou a estudar macrobiótica e filosofia oriental.

Nos anos 50 decidiu dedicar a sua vida à causa da paz mundial e emigrou para os Estados Unidos para se casar com Michio Kushi, na altura um graduado de Direito Internacional na Universidade de Columbia, cujo sonho era a criação dum governo mundial, de forma a evitar uma 3ª Grande Guerra. Einstein, Thomas Mann, Upton Sinclair, Norman Cousins eram alguns dos principais protagonistas do movimento do Governo Mundial, que acabou por se transformar nas Organização das Nações Unidas.

Aveline iniciou em Nova Iorque em 1951 as primeiras actividades macrobióticas nos Estados Unidos que incluíram aulas de culinária, o restaurante Musabi e um campo de Verão em Long island e em Catskills.

Em 1960, os Kushis fundaram a primeira companhia de produtos naturais da América, a que deram o nome de Erewhon, em memória ao utópico livro de Samule Butler com o mesmo nome. A Erewhon cresceu tremendamente e Aveline foi a responsável pela introdução no mercado americano de alimentos nunca até aí conhecidos como arroz integral, millet, tofu, seitan, miso, cogumelos shitake, algas, chá 3 Anos, etc.

Numa busca incessante de qualidade e preocupada com o facto de as práticas de agricultura moderna deteriorarem seriamente a qualidade nutricional dos alimentos, Aveline Kushi reuniu-se com os agricultores da Califórnia e Arkansas e convenceu-os a cultivarem arroz produzido sem produtos químicos. Para tal, pagou-lhes antecipadamente as colheitas, independentemente do resultado e a um preço exorbitante.

Nos anos 70, promoveu o intercâmbio cultural entre o Oriente e o Ocidente divulgando a produção de futons (colchões tradicionais japoneses de algodão até então praticamente desconhecidos e actualmente um dos artigos que mais se vende nos Estados Unidos e Europa), teatro Noh, cerimónia do chá, aikido, caligrafia e muitas outras artes.

Foi instrumental nos estudos realizados sobre alimentação e doenças degenerativas, particularmente doenças cardiovasculares e cancro e ajudou a lançar as ideias de saúde natural, medicina alternativa e a revolução de saúde moderna.

Fundou as organizações sem fins lucrativos, East West Foundation, Kushi Institute e Kushi Foundation, escreveu numerosos livros de culinária, um livro para crianças e a sua autobiografia.

Aveline Kushi tinha também um sentido estético e artístico extraordinário e foi autora de desenhos e pinturas de uma enorme beleza, para além de ter ilustrado um bom número de livros editados pela Japan Publications e Warner Brothers.

Há 9 anos, foi-lhe diagnosticado uma cancro terminal no colo do útero e apesar de ter sido enviada para casa para morrer, continuou tanto quanto possível com as suas actividades normais e manteve até ao fim uma enorme lucidez e espírito de gratidão para com a vida.

Lembro-me de lhe telefonar durante os seus últimos meses de vida e de me dizer sempre o quão a vida era bela, para além de perguntar sempre acerca de todos aqueles que eram amigos comuns.

Aveline Kushi deixou 4 filhos e 13 netos, mas acima de tudo deixou um enorme sonho de Paz e Amor para toda a Humanidade.

Foi sem dúvida uma das mulheres que na era moderna mais contribui para a construção de um Mundo melhor.